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“Eu nunca tive um plano B”

14/08/2018 - 16:13

Ronei, com a faixa de capitão, carrega também o espírito de liderança | Foto: Rafael Bressan/ChapecoenseRonei Gebing, de 20 anos, saiu da infância humilde para viver um dos grandes momentos da sua vida no futebol. Estar entre os relacionados para um jogo parece simples, mas não quando se trata de uma quarta de final de Copa do Brasil, contra o Corinthians, sendo a sua primeira vez na equipe principal. “Quando recebi a notícia não acreditei. Me falaram na hora do almoço que eu estava na lista e às 17h já íamos viajar. Fiquei feliz demais. Estava vivendo meu sonho de perto.”

Um turbilhão de emoções em poucos dias. No sábado, o jovem foi bicampeão Catarinense sub-20. No domingo, um dia antes da convocação para a Copa do Brasil, saiu a lista de quem ia para a Itália disputar o amistoso contra o Torino e Ronei não estava presente. A tristeza do primeiro momento virou em alegria no dia seguinte. “Saiu a lista pra Itália e eu fiquei muito triste. Aí na segunda veio a notícia que viajaria pra Copa do Brasil. Pensei em mil coisas, passou muita coisa na cabeça. Avisei minha família e todos ficaram muito felizes. Eles viveram tudo isso comigo.” O volante não entrou em campo, mas relata que a esperiência valeu muito.

Na Chape desde 2015, o garoto já marcou seu nome nas categorias de base do clube. Quando chegou em Chapecó, a Chape ainda não havia conquistado nenhum título estadual de base. Logo em seu primeiro ano, foi titular e protagonista na conquista do Catarinense sub-17. Nos anos seguintes, a ascensão à categoria sub-20 e mais dois títulos: o Catarinense de 2016 e o de 2018. “Quando cheguei não imaginei que seria três vezes campeão do estado. Então fico muito feliz em fazer história na base, vou guardar para sempre na minha vida tudo o que construí aqui, a família Chapecoense, onde tenho muitos amigos."

Título Catarinense Sub-20 de 2016 | Foto: Rafael Bressan/ChapecoenseA dificuldade pela distância da família e amigos era constante, mas o grande momento de superação veio no início de 2017. Pouco mais de um mês após a tragédia com o avião da Chape, os meninos entravam em campo para disputar a Copa São Paulo de Juniores. “A Copa São Paulo, onde chegamos entre os oito, com certeza é o momento mais intenso que vivi aqui na Chape, por tudo que envolvia. Foi o momento que nos unimos, criamos uma grande família, e todas as pessoas torciam pela gente.”

Início no futebol: “Devo tudo aos meus pais”

Aos 10 anos de idade, aconteceu a mudança que colocou Ronei no caminho do futebol. Quase todos os irmãos já haviam se mudado para a cidade de Encantado-RS em busca de emprego. Foi quando Seu Alício decidiu fazer o mesmo caminho: deixar para trás a roça em Três Passos e mudar para perto dos filhos. Com ele foram dona Maria, Ronei e mais um irmão - os únicos que ainda moravam com os pais.

Em Encantado, Ronei ingressou na escolinha da cidade e encontrou Fernando Radaelli, o primeiro professor. “O Fernando Radaelli foi o início de tudo. Ele me ajudou muito. As vezes, quando eu não tinha dinheiro pra viajar pros jogos, ele me dava. Sempre fez o que estava no seu alcance para me ver bem. Por isso são muito grato a ele.”

Início no Juventude. Ronei é o terceiro, da direita para a esquerda, entre os agachados | Foto: Arquivo pessoalDe 2010 a 2013 veio a primeira grande oportunidade: jogar no Juventude. Por questões do destino, os pais voltaram para Três Passos e Ronei, com 12 anos, passou a morar com o irmão de 18 e três vezes por semana se dirigia para Caxias para treinar. “Nessa época eu e meu irmão tivemos que nos virar com tudo. Tive a responsabilidade de virar adulto antes da hora. Em determinados momentos meus pais tinham que trabalhar duro na roça pra mandar dinheiro pra eu continuar indo para os treinos. Muitas pessoas viam toda a dificuldade e disseram para os meus pais que eu devia começar trabalhar pra poder ajudar nas contas, só que meus pais falaram que não, que iam fazer de tudo, até onde eles conseguissem. E eu nunca pensei em desistir. Nunca tive um plano B para minha vida. Devo tudo aos meus pais, com certeza se não fosse eles eu não estaria aqui hoje.”

Infância no interior

A vida humilde do interior ainda segue enraizada na memória e costumes do volante da Chape. Ronei é o caçula de uma família com nove filhos.  Seu Alício Gebing e dona Maria Dulce Gebing, 73 e 62 anos de idade, criaram os seis filhos homens e as três filhas mulheres no interior de Três Passos, no Rio Grande do Sul. “Nunca foi fácil. Porque venho de família humilde e sempre tive que lutar muito pra chegar aonde estou hoje, e claro que quero muito mais. Desde bem cedo eu ia com meus pais pra roça, ajudar no que era possível. Nós plantávamos o nosso próprio alimento. Minha mãe vendia apenas leite e algumas verduras.”

O dinheiro para comprar brinquedos era a imaginação. Sem ter condições para adquirir carrinhos ou similares, a criatividade e a ajuda dos irmãos transformava coisas simples em brinquedos. “Eu pegava uma inchada e fazia a estrada. Depois, pegava um barbante, amarrava na espiga de milho e fazia de conta que era um carro. Altas curvas perigosas”, lembra com sorriso no rosto. É claro que a bola era também sua fiel companheira. “Eu jogava nos potreiros, era sempre uma diversão.”

Caseiro e apegado a família, Ronei sonha com uma vida tranquila e retribuir toda a ajuda recebida em sua trajetória. “Espero que logo possa estar no profissional e, primeiramente, quero ajudar a Chape, depois sim, jogar na Europa, conquistar títulos, ser reconhecido pelo meu trabalho. Espero que eu possa durante essa caminhada ajudar todas as pessoas que me ajudaram e que precisam de ajuda, principalmente meus pais e toda minha família”, finaliza o jovem.

Por Rafael Bressan

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